Algumas verdades sobre o mercado de trabalho – parte 2
Ontem, dei início a um texto sobre como desenrolam-se e como de fato são algumas coisas no trabalho, abordando a parte das entrevistas e seleções. Seguimos falando agora sobre o momento durante a sua jornada em uma organização, o emprego propriamente dito – ou como o empregador pode abordar tudo isso, ou talvez devesse.
Não leu o texto anterior? Leia primeiro!
O dia-a-dia no emprego
Ok, você finalmente venceu a maratona das entrevistas e conseguiu seu emprego! (Isso parece a narração naqueles “tutoriais” do Pateta, não?) Aqui ainda há pontos que podem ser usados na fase pré-emprego (a entrevista) e outros no dia-a-dia. Vejamos.
Uma coisa muito comum, mencionada horrendamente em excesso na tv e em publicações especializadas é sobre a sua vida virtual e sobre quanto ela fala sobre você. Que por exemplo, você não deve comentar no facebook ou orkut sobre o que você faz de reprovável. Dica número 1, “reprovável” é ter um orkut, uma vez que a empresa sabe que você tem orkut, não há nada de bom a esperar, exceto…
“Eu amo acordar cedo“. Esta comunidade existe? Se sim, considere todas aquelas pessoas uns larápios safados incríveis. Nenhuma daquelas é digna de confiança. Ninguém em sã consciência gosta de acordar cedo. Sabe quem acorda cedo? Velhinhos que estão com um pé e meio na cova e querem aproveitar suas últimas horas na Terra ao máximo. E só. Ninguém gosta de acordar cedo. Vai por mim, você pode até gostar do que acordar cedo te trás, como assistir ao Globo Rural (opa, velhinho!), mas de acordar cedo propriamente? Not really. Pior, estes “gurus do emprego” aconselham, “não esteja na comunidade ‘eu odeio acordar cedo’ e afins”, por quê? Não pode declarar que gosta de beber cerveja. Não pode declarar que fuma. Não pode expressar religião – muito menos se não for a predominante. Um ateu como eu? Relegue-se a catar lixo, sempre se defendendo dos outros catadores que vão tentar te matar. Não pode declarar que não adotou duas crianças africanas por caridade. Deus por que você procura um funcionário mentiroso, senhor empresário?
Eu, particularmente, o Raphael, detesto do fundo da minha alma acordar cedo. Se você estiver me entrevistando algum dia e procurar meu nome no Google, vai encontrar este texto. Se eu disser que amo acordar cedo, estou desesperado pelo emprego ou definitivamente insano. Eu não gosto. Me acorde ás 9, que eu considero um limite tolerável e eu vou produzir bastante. Me acorde ás 6 e me veja com um humor péssimo e começando a produzir algo lá pelas 14h.
Aliás, taí outra coisa que sempre me irrita, horário de trabalho. Seja do lado empregado, seja do lado empresa. Está errado. Está muito errado. Primeiro que eu não acho necessário a todas as funções (mas isso eu comento mais abaixo). E aqui não existe o 9-to-5, nosso 9-to-5 é, na prática, 8 ás 18, com duas horas de folga. Motivo para ficar deveras puteado. As pessoas passam cada vez mais tempo fora de casa graças ao maldito trânsito. E aí os gênios que fazem o comércio inventaram o maldito horário comercial, que tem porque tem de ser das 8 ás 18 horas. Mesmo funcionários que não são da linha de frente, o atendimento da empresa precisam chegar ás 8h. Por quê? Provavelmente aquela desculpa de gente burra, “porque sempre foi assim”. Sério, se você tem 90 funcionários, mande 30 entrarem ás 8am, 30 chegarem ás 9am e 30 chegarem ás 10h, saindo respectivamente ás 18, 19 ou 20h. Na verdade, 17, 18 e 19h se sua empresa não faz horário de almoço burro. Por que burro? Porque ninguém precisa descansar duas horas, duas infinitas horas, cento e vinte minutos entre uma pausa e outra. Quando eu trabalhava nesse regime, com 1h30 de pausa eu já queria minha cama. Eu queria ir estudar. Eu queria namorar. Eu queria tudo menos voltar a ficar de cara amarrada o resto da tarde.
A premissa é de que você descansa as duas horas porque vai pra casa, faz o almoço e almoça lá. Claro, com helicóptero e seus três chefs franceses contratados exclusivamente para lhe servir já com um almoço requintado e servido pontualmente ás 12h15. Ah, você não tem isso em casa? Opa, desculpa, você levaria 1h30 no trâsito para ir, uma hora para cozinhar, 10 minutos para comer correndo feito um animal, sair correndo (escove os dentes no caminho), outra 1h30 para voltar estressado e terminar seu dia. Ou seja, a menos que você more ao lado do trabalho ou numa cidade de tamanho comparável ao orifício anal, não, você não vai almoçar em casa e não precisa dessas duas horas. Se for o caso em que você realmente aproveita estas duas horas, você poderia avisar a empresa. Do contrário, não, a empresa não tem porque folgar duas horas. Aí o funcionário chegaria mais cedo em casa e menos estressado, certamente.
Ah, os horários de chegada diferenciados? Serviriam a dois propósitos fundamentais: os funcionários mentirosos que gostam de acordar cedo poderiam chegar ás 8 da manhã e sair ás 17h sabendo que há alguém na empresa, sem se preocupar. Os funcionários honestos que confessam que de manhã querem mais é dormir mesmo, poderiam chegar por volta das 10h e sair ás 19h. Além de todos mais felizes, atingiríamos o segundo propósito (se adotado massivamente), menos trânsito nas ruas, dividindo os carros e lotação nos transportes públicos, espalhando a duração da hora do rush.
E o fator cumprir horário de trabalho em si? Ok, em teoria temos os regimes mais comuns de 40 e 44h semanais, além dos estagiários, que em tese trabalham 20 ou 30h semanais. Essas horas devem ser cumpridas, se faltar o funcionário deve repor ou se sobrar, receber as horas pagas (o que na prática, não existe, já que a empresa inventa o tal banco de horas, que fica lá até que você se atrase de novo). Essa obrigação é válida para as funções de atendimento, onde é indispensável que alguém cumpra horários para atender o cliente e claro, os sujeitos mais capiais querem que seja assim, já que eles sonham receber estas horas extras que eventualmente farão jus (nunca).
Ok, mas vamos supor que você, meu leitor refinado e especial não é tão gado assim e pensa ao mesmo tempo em que respira. Você certamente já parou para constatar que nem sempre você precisa ficar à disposição o tempo todo. É muito, muito comum ver gente que ainda pela manhã já terminou com a maioria das suas obrigações no dia e no meio da tarde já não tem mais o que fazer no trabalho. Aí fica jogando paciência e batendo papo, já que aqueles bastardos bloquearam a sua internet e você só tem e-mail corporativo (que aliás, os funcionários usam para papos non-work-related, não se engane, chefe de pessoas que possuem acesso a computadores). Então eu pergunto ao chefe que me lê: por que o funcionário não pode ter horários mais flexíveis? “Ah porque, porque…” A desculpa mais comum que ouço, e sim, já perguntei isto a dezenas de empregados é que, além de preservar acordos rígidos do século passado estabelecidos e mantidos pela CLT, é a de que “não podemos quebrar o clima organizacional“, ou seja, que o funcionário não pode chegar mais tarde e produzir seu máximo, ou sair mais cedo quando não tem mais o que fazer naquele dia porque “os colegas vão comentar”. Sim, aquela filha da puta que sai da sala o dia todo e fica tomando cafezinho e atendendo telefone reclamar de você é algo importante para seu chefe. Alguém devia falar praquela vaca que ela justamente não merece este tipo de benefício porque ela é a vaca que fica tomando café e passeando pelas dependências da empresa e alimentando a rádio-corredor, ao invés de trabalhar e ser awesome no que faz. E pro seu chefe que ele devia parar de comer aquela vaca e dar mole na cobrança com o trabalho dela – eu nunca entendo como as vacas da rádio-corredor se mantém no emprego, certamente elas escondem podres da empresa ou estão dando para o chefe.
Cabe um parêntese aqui, eu não estou falando que o funcionário deva sair todo dia cedo da empresa assim que terminar o que precisa, ou chegar tarde se garantir que cumpre tudo até o fim do expediente regulamentar. Mas isso poderia ser aplicado em inúmeros dias e momentos específicos. Ás vezes o funcionário tem problemas pessoais, inúmeros, como todos nós temos, sejamos chefes, empregados de cima, de chão de fábrica, desempregados ou autônomos.
O cara pode ter o filho doente. Pode estar um pouco doente, não o suficiente para ficar em casa o dia todo, mas não á vontade para passar 8, 10 ou 12 horas na empresa. Pode ter um curso universitário para tocar e considerar alguns minutos preciosos (meu caso em muitas situações). Então, uma flexibilização num dia ou outro não faz mal a ninguém, pelo contrário. E claro, se essa folga na carga horária for constante, as atribuições e mesmo o cargo podem ser revistos – devem.
Em contrapartida, um profissional dedicado sabe quando pode retribuir à empresa nos momentos em que esta precisa dele. Pode sim, ficar até mais tarde, eventualmente chegar mais cedo ou trabalhar por alguns finais de semana. Desde que sem abusos, isso não mata ninguém.
Eu acredito em relações de trabalho como parcerias. Funcionário que precisa, é atendido. Empresa compreende e solicita, do mesmo modo, quando necessita. O profissional atende e todos saem mais fortes do processo.
Ainda falando dos hábitos tidos como reprováveis, há coisas que não se deve mencionar, coisa que não se conta, coisas que ninguém deve saber. Pelo menos é o que dizem. Dizem que você não conta essa série de “coisas feias” sobre você, porque se souberem algumas coisas, pode ser que nunca mais queiram você trabalhando, afinal, “você não pode dividir sua personalidade” (salvo se munido de algum transtorno psiquiátrico), “você é o mesmo em casa do que no trabalho” e toda essa sorte de jargões populares. O que nunca me explicaram é como uma pessoa que, em tese, não pode dividir estes comportamentos, consegue esconder os mesmo comportamentos, ás vezes por décadas no emprego. Só posso imaginar que são pessoas geniais demais para o cargo que ocupam, ou que tudo isso é uma balela desmedida.
Melhor são os tais comportamentos, que vão do simples beber fora do expediente a ser um cafajeste com o mulherio (ou uma vadia, no caso feminino e de acordo com nosso modo popular e bastante peculiar de se falar). Pensando como empresário, pensa, pensa comigo. O cara caga o pé de tanto beber? Fica torto, precisa de glicose na veia uma vez por semana? Ah que absurdo, isso eu não aceito! Eu, particularmente não aceitaria uma pessoa assim para casar (ou se eu estiver na mesma, sim). Agora, se é só fora do trabalho que isso acontece, e 9-to-5 o sujeito é incrível? Foda-se. Foda-se se ele joga queimada ou se ele organiza o próprio clube da luta e chega todo roxo. Se a função do cara é de atendimento, visitar clientes, pode ser um problema. Mas se, por exemplo, ele é programador e eu preciso de alguém monstro nos códigos, alguém são demitiria este sujeito por isso? Amigo, se você for incrível no que faz, você pode passar metade do dia xingando a minha mãe pelo twitter, eu não me importo. Trabalhe para mim de uma forma incrível que eu não dou a mínima pras cagadas que você faz fora do expediente.
Fica melhor: alguém lembra do preconceito contra os tatuados? Certamente mesmo que você seja empresário ou funcionário público, ainda vai ouvir a sua mãe comentar sobre como isso é irresponsável e péssimo para o trabalho. E provavelmente este preconceito ainda existe em milhões de empresas. E eu tento juntar os pontos e pensar porque esse pessoal com a pele pintada ou a cara furada é pior que os demais, não consegui.
Não sei, eu tenho muito mais medo de uns senhores de terno que trabalham em Brasília e parecem os mais sérios e comprometidos do mundo, se você olhar de longe, é claro.
Aliás, terno, taí outra merda. Eu visto um terno e me sinto sim, mais bonito, elegante. Gosto de vestir um terno e me sentir bem dentro dele. Mas usar terno diariamente por obrigação é péssimo. No fundo no fundo, não passa de “fantasia de executivo“, algo que você usa para aparentar falsa seriedade. Quem faz por merecer respeito, aparenta seriedade até de sunga na praia. Barney Stinson, o mestre dos ternos já ensinou: você usa o terno, you do look awesome. Mas ele jamais te impedirá de fazer muita, muita besteira. Aliás, o pessoal que deflagrou a crise financeira de 2008 não trabalhava de chinelos e bermuda não.
Claro, dá pra ir muito mais longe que isso. Cada argumento aqui apresentado merece um livro estudando tudo isso, que pode passar de justificativas históricas e até algum fim na discussão sobre o que seria melhor para cada tipo de pessoa e organização. Isto é um apanhado a grosso modo, que poderia incluir ainda, muitas atitudes mais. Como aqui eu não quero enganar ninguém, falo o que penso – e muita gente também, com a diferença sobre admitir ou não. Se procura textos sobre como agir numa entrevista, conseguir um emprego e ser o mesmo zé ninguém para sempre, você veio ao lugar errado. Procure no Google e siga a manada.
Aliás, você já notou que a maioria das pessoas não sabe usar o Google direito? Que vergonha.





Verdades sobre o mercado de trabalho (parte DOIS/final) http://migre.me/5fyxX leião amgs :D
RT @Raph4: Verdades sobre o mercado de trabalho (parte DOIS/final) http://migre.me/5fyxX leião amgs :D
Nada mais do que a verdade foi dita.
=)